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Conversa com Ana Avelar, curadora selecionada para oportunidade de pesquisa no Getty Research Instituteback

O Latitude conversou com a curadora selecionada para o Intercâmbio de Curadores 2018/2019 – Pesquisas e práticas curatoriais, Ana Avelar. Além de trabalhar com curadoria, ela é professora de Teoria, Crítica e História da Arte na Universidade de Brasília (UnB).

O programa de intercâmbio acontece de 8 de abril a 31 de maio de 2019. A ação é promovida pelo projeto Latitude.

Você sempre quis estudar arte?
Na adolescência, em Curitiba, fiz todos os cursos de História da Arte disponíveis - em museus, centros culturais, etc. Naquela época, não havia ainda a graduação em História da Arte, curso no qual leciono hoje. Acabei estudando Letras na USP, pois meu objetivo era trabalhar com crítica de arte. Com 21 anos, ainda no início da graduação, consegui escrever como freelancer para o caderno Ilustrada, da Folha, justamente comentando exposições. Eu havia acabado de chegar a São Paulo e foi um crescimento profissional enorme para mim.

Qual a sua área de estudo?
Especializei-me em arte brasileira, sobretudo moderna e contemporânea. Venho da crítica de arte, mas, hoje, estou me interessando mais por estudos sobre mulheres artistas e abordagens feministas.

Na sua opinião, o que é ser uma boa curadora?
Acredito que a curadoria deve estar aberta para perceber como a arte está comentando a contemporaneidade, como a arte nos oferece caminhos alternativos de vida por meio de experiências únicas. Ser uma boa curadora é dar acesso a essas experiências incríveis - sejam elas intelectuais, históricas ou sensíveis -, ao mesmo tempo em que ouvir os artistas sobre suas visões acerca do mundo. Isso no caso de curadorias de arte contemporânea. Já as exposições ditas históricas, com acervos consagrados, exigem outras habilidades - como um grande conhecimento da História da Arte e outras áreas das Humanidades - e, na minha opinião, é preciso ainda unir tudo isso à vontade de rever visões estabelecidas sobre arte, trazendo uma contribuição efetiva para os estudos da área.

Sabemos que você já participou de muitos projetos/exposições. Você destacaria algum?
Eu destacaria duas exposições bem diferentes. A primeira é “Lina Gráfica”, que eu fiz em conjunto com outro curador em 2014, no Sesc Pompeia. Essa mostra me ensinou muito porque era uma mostra muito grande sobre uma arquiteta importantíssima no Brasil em termos não apenas do que ela fez como arquiteta, mas também como designer, pensadora e agente cultural. Essa exposição me ensinou a refletir e a aprender todas as habilidades para fazer uma grande exposição histórica. A exposição “Lina Gráfica” era sobre os desenhos, as ilustrações e o material de design da Lina Bo Bardi.

A segunda exposição que eu destacaria é a recente “Brasília Extemporânea”. Essa exposição foi bem difícil porque a gente contava com o orçamento muito baixo e ela precisava dar conta de algumas diretrizes... Era uma mostra que precisava colocar no mapa a Casa Niemeyer, como novo espaço de cultura e arte contemporânea, e também apresentar novas visões sobre a capital Federal. Então, eu fiz uma pesquisa muito extensa com a minha assistente, pesquisamos trabalhos com muitas imagens da cidade contemporânea e que fossem, principalmente, vídeo-instalações, intervenções, fotos, e não obras de arte de caráter mais conservador. Foi uma segunda grande experiência para mim porque eu tive que trabalhar com várias frentes.

Explique um pouco sobre a pesquisa que você vai desenvolver no Getty Research Institute e conte também o que você pretende analisar no acervo da instituição.
Eu vou estudar um fundo de uma crítica de arte, galerista e colecionadora argentina chamada Clara Diament Sujo. Ela viveu nos Estados Unidos e representou vários artistas latino-americanos lá. Então, em consonância com o projeto de pós-doutorado que eu já desenvolvo no Museu de Arte Contemporânea da USP, eu vou pesquisar o pensamento da Clara como crítica de arte e galerista e também esses artistas que ela representou, buscando aí um interesse pela gestualidade. Então, uma face importante do trabalho da Clara é justamente essa abstração lírica, o que nos anos 50 e 60 denominava um tipo de abstração na qual o gesto era muito presente. Seria a oposição à abstração geométrica.

A Getty tem um fundo de papéis dela que acabou de receber e é esse fundo que eu propus estudar. Isso pode ser interessante aqui no Brasil também porque a Clara Diament Sujo é bastante desconhecida por nós. Ela é uma figura bem importante em termos de representação da arte latino-americana nos Estados Unidos e, tendo se envolvido com a abstração não geométrica, a galerista conta um pouco dessa outra face, desse outro lado da abstração latino-americana que apenas recentemente começou a ser estudado.

Como as pessoas enxergam o trabalho do curador no Brasil?
Nas artes visuais, eu acredito que é ao mesmo tempo uma profissão valorizada e não é. Se você for ver, há poucos postos de curador institucional no Brasil. Os curadores independentes têm muitas dificuldades para se manter, então, é um cenário que não valoriza o curador. O público em geral desconhece largamente o que é o trabalho do curador. Assim, eu entendo que para os curadores serem mais conhecidos, temos de estender o trabalho de curadoria para as pesquisas acadêmicas. A curadoria tem de começar a ser disciplina para que esse tipo de atividade se profissionalize.

A outra coisa é começar a divulgar o trabalho de curadoria, falar sobre isso em entrevistas, explicar o que faz um curador no dia a dia. Todo trabalho de pesquisa, de produção, de viabilização dos projetos com alto ou baixo orçamento, isso precisa ser mais bem divulgado. A maneira como esse trabalho é exaustivo, enorme e demorado.

E no exterior? Como o curador brasileiro é visto?
Em muitos outros países hoje o exercício da curadoria é de fato uma profissão e é reconhecido como tal. Existem muitos postos de curadores e editais disponíveis. Alguns curadores e curadoras brasileiros são bem vistos no exterior. Figuras como Paulo Herkenhoff e Tadeu Chiarelli são bastante reconhecidas. Outros agentes como a Ana Magalhães, que é a minha supervisora no MAC, ela é uma curadora ligada a uma instituição universitária pública e reconhecida no exterior também. A gente está começando a ser reconhecido no exterior pelo bom trabalho feito aqui.

Por fim, o que você acha que esta oportunidade de pesquisa representa para os curadores atuantes aqui?
Eu acho que qualquer projeto de pesquisa no Getty é uma oportunidade única para qualquer profissional que trabalha com artes visuais. É um dos acervos mais renomados do mundo, é uma instituição com um trabalho reconhecidamente muito profissional há muitos anos. Espero que essas propostas de intercâmbio entre nossas instituições e o Getty se ampliem ainda mais com o passar dos anos. Fazer essa pesquisa no Getty vai certamente contribuir muito para as minhas aulas sobre curadoria e crítica, para minha pesquisa acadêmica e como curadora acerca dos acervos de críticos latino-americanos e da arte latino-americana moderna e contemporânea de modo geral.